6 DE NOVIEMBRE DE 2026

Na Indústria de Beleza, Sustentabilidade não é mais suficiente

por Alice Gonçalves

Blocos de lego empilhados

Primeiramente, se você atua com beleza e ainda não pensa em sustentabilidade, precisamos conversar

Eu ando tendo muitas conversas com pessoas da indústria de beleza.

Algumas já entendem que sustentabilidade deixou de ser um tema lateral. Outras ainda enxergam isso como algo distante, quase como uma pauta de comunicação, reputação ou posicionamento.

Mas essa é uma decisão perigosa. E aqui está o porquê:

Em 2026, a sustentabilidade se consolida como uma das principais forças de transformação da indústria global.

Mais do que um diferencial reputacional, ela passa a influenciar diretamente competitividade, inovação, investimento, acesso a mercados e posicionamento estratégico. Esse movimento é impulsionado pela crise climática, pela maior exposição das cadeias produtivas a riscos logísticos e regulatórios, pelo avanço da economia circular e por um consumidor cada vez mais atento à coerência entre discurso e prática. Tudo isso é sobre risco econômico e mercadológico.

Mais de 60% das empresas globais já implementaram uma estratégia formal de sustentabilidade em 2024 - Sustentabilidade já influencia competitividade, inovação, investimento e acesso a mercados

Mais de 60% das empresas globais já implementaram estratégias formais de sustentabilidade.

Ainda segundo a Euromonitor International, 20% das vendas globais, em 2023, corresponderam a produtos com alegações sustentáveis, com crescimento superior ao de produtos sem esse posicionamento, mostrando que cada vez mais a sustentabilidade deixa de ser tópico paralelo e passa a integrar decisões centrais de crescimento.

Isso significa que sustentabilidade não é mais apenas uma escolha de marca. É uma escolha de negócio.

E essa transformação também aparece no comportamento de consumo.

Ano passado, eu li um artigo da Isabel Evans, na Mintel, que traz uma perspectiva muito importante sobre o consumidor: ele não compra apenas por performance.

Cada vez mais, ele avalia eficácia, origem, transparência, propósito, segurança e impacto ambiental. Isso muda bastante a forma como marcas de beleza precisam pensar seus produtos, porque não basta afirmar que um cosmético é natural, sustentável ou ecológico. É preciso demonstrar por que ele funciona, como foi produzido, de onde vem e qual impacto gera ao longo da cadeia.

No artigo, a Isabel mostra que estamos saindo de uma fase de alegações ambientais mais genéricas para uma lógica de maior especificidade. Ou seja, em vez de apenas dizer que algo é “verde” ou “eco”, as marcas precisam explicar com mais clareza qual problema estão resolvendo e como aquela iniciativa se conecta ao seu setor, ao seu produto e às preocupações reais do consumidor.

A expectativa de que marcas liderem soluções para questões ambientais cresceu de 60% em 2023 para 65% em 2024.

Dados de tendências de beleza associados à Mintel indicam que 66% dos consumidores japoneses demonstram interesse em produtos com atributos ecológicos, enquanto 64% dos consumidores franceses prefeririam ingredientes naturais cultivados em laboratório em vez de ingredientes sintéticos, sinalizando abertura para soluções de beleza com maior controle tecnológico, origem mais clara e menor impacto ambiental.

O que já foi diferencial competitivo agora se consolida como expectativa mínima de mercado.

E talvez esse seja o ponto mais importante para quem atua com beleza: o consumidor continua querendo resultado. Ele continua querendo sensorial, segurança, eficácia e performance. Mas agora ele também quer coerência.

Segundo pesquisa da PwC, quatro em cada cinco consumidores afirmam aceitar pagar mais por produtos sustentáveis, desde que haja percepção real de valor, coerência e funcionalidade.

O prémio médio que consumidores aceitam pagar por produtos sustentáveis é em média 9,7%.
Sustentabilidade sozinha não basta. Performance sozinha também começa a não bastar. O desafio está em unir as duas coisas.

Nesse cenário, empresas que ainda operam com declarações amplas ou pouco verificáveis enfrentam risco crescente de greenwashing, com impacto direto em reputação e fidelização. A perda não é apenas comercial, é perdida também a confiança, especialmente entre consumidores que associam compra a propósito e impacto positivo.

E confiança, no mercado de beleza, é um ativo enorme.

A WGSN reforça esse movimento ao mostrar que o interesse por produtos produzidos de forma ética cresce em ritmo acelerado, com aumento anual de 62% nas interações relacionadas ao consumo ético. Confiança, transparência e responsabilidade real tornam-se critérios centrais de escolha, consolidando uma lógica em que credibilidade depende cada vez mais de evidência.

As diferenças geracionais juntamente à digitalização, ampliam esse efeito. Enquanto Baby Boomers seguem valorizando durabilidade e fidelidade a marcas, a Geração X mantém foco em qualidade e comparação racional, Millennials ampliam a relevância de experiência, flexibilidade e propósito e gerações Z e Alpha demonstram menor tolerância a incoerências entre discurso e prática. Assim, sustentabilidade industrial passa a responder não apenas a pressões ambientais, mas também a novas exigências sociais e econômicas.

Na indústria de beleza, isso produz uma mudança importante, onde sustentabilidade deixa de ser apenas redução de impacto e passa a significar inteligência de processo.

Ingredientes rastreáveis, embalagens reutilizáveis, fórmulas limpas, cadeias transparentes e processos de baixo impacto ambiental passam a ser exigidos pelo mercado, tornando-se indicadores de inovação industrial.

Em 2026 e adiante, a inovação tende a ser medida pela capacidade de integrar ciência aplicada, circularidade, funcionalidade comprovada, rastreabilidade, inclusão, eficiência operacional e responsabilidade ambiental mensurável. O mercado passa a buscar cadeias mais eficientes e circulares, soluções que economizem tempo, reduzam atrito operacional e entreguem praticidade com responsabilidade. Cresce também a expectativa por modelos produtivos capazes de combinar tecnologia, funcionalidade, diversidade cultural, inclusão e sustentabilidade, além de ampliar a participação de comunidades e consumidores em decisões que afetam produtos e cadeias de valor.

Na prática, três movimentos ganham força:

1. Economia circular aplicada à lógica industrial

Resíduos passam a atuar como matérias primas estratégicas. Biomassas vegetais, coprodutos agroindustriais e subprodutos industriais ganham valor tecnológico porque permitem ampliar aproveitamento, reduzir perdas e gerar maior eficiência material.

A Mintel destaca o avanço do upcycling, da fermentação de precisão e da biofabricação como respostas à demanda por menor impacto ambiental sem perda de desempenho.

2. Rastreabilidade como parte do valor do produto

A origem da matéria prima, a previsibilidade da cadeia e a capacidade de demonstrar impacto ambiental passam a ser observadas não apenas por consumidores, mas também por investidores, reguladores e grandes compradores corporativos.

Isso muda bastante a lógica de desenvolvimento de portifólio.

Como o Joaquim Araujo costuma falar nas reuniões de marketing: não se trata apenas de escolher um ingrediente que “parece sustentável”. Trata-se de construir uma narrativa que possa ser sustentada tecnicamente, comercialmente e regulatoriamente.

3. Alta performance coexistindo com menor pegada ambiental

Sustentabilidade isolada já não é suficiente. Não sei você, mas eu tenho visto cada vez mais simplificação de formulações e formatos. A chamada clean beauty consolida fórmulas enxutas porém potentes, rastreáveis e com menor complexidade de composição.

E não, não é coisa de Europa. No Brasil, essas tendências também se intensificam.

O setor de beleza e cuidados pessoais vem ampliando a recuperação de embalagens pós-consumo no Brasil

A ABIHPEC - Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos aponta evolução consistente em circularidade de embalagens e recuperação de resíduos, com programas estruturados de logística reversa e reaproveitamento. Paralelamente, a ApexBrasil trata a sustentabilidade como ferramenta de aumento de competitividade e geração de negócios internacionais.

Esse ponto é muito relevante para marcas brasileiras.

Nós temos biodiversidade, conhecimento científico, ativos naturais, cadeias produtivas que podem ser valorizadas e uma oportunidade enorme de transformar tudo isso em produtos de alto valor agregado.

Mas existe uma diferença entre usar sustentabilidade como discurso e usar sustentabilidade como estratégia.

Na prática, sustentabilidade na industria de beleza deixa de ser resposta periférica às exigências ambientais e passa a ocupar posição estratégica nas decisões de crescimento e permanência competitiva. Mais do que reduzir danos, passa a representar inteligência industrial aplicada, visão de longo prazo e capacidade real de gerar valor em cadeias produtivas cada vez mais seletivas.

Depois de 2026, não basta ser sustentável. É necessário provar que essa sustentabilidade melhora processos, qualifica produtos, reduz riscos, fortalece reputação e cria futuro econômico. E é por isso que eu acredito que marcas de beleza precisam olhar para seus portfólios agora.

Não apenas perguntando: “esse produto é sustentável?” Mas também:

Esse ingrediente tem origem rastreável? Essa formulação entrega performance real? Essa cadeia reduz impacto ou só comunica melhor? Esse produto está preparado para consumidores mais exigentes? Essa inovação fortalece a marca no longo prazo?

Aqui na Nanoterra, nós desenvolvemos tecnologias de ponta e ingredientes cosméticos que foram pensados para serem sustentáveis desde o design. A gente escolheu isso e reafirma com governança.

Criamos ingredientes nanotecnológicos e sustentáveis para ajudar marcas de cosméticos a se posicionarem com mais segurança nesse mercado. Por isso, estamos sempre de olho em como o nosso setor avança, quais movimentos ganham força e como ciência, performance e sustentabilidade podem caminhar juntas.

Quer saber mais sobre os nossos produtos? Não concorda com alguma coisa que eu escrevi ou quer só conversar um pouco mais sobre o assunto? Dá um oi no nosso perfil.

Referências

  1. Euromonitor International. Three in five Companies Implemented a Sustainability Strategy in 2024: Euromonitor International. 2024. Dsiponível em: https://www.euromonitor.com/press/press-releases/september-2024/three-in-five-companies-implemented-a-sustainability-strategy-in-2024-euromonitor-international
  2. Mintel. The Evolution of Sustainability: From Green Claims to Eco-Specific. 2025. Disponível em: https://www.mintel.com/insights/consumer-research/the-evolution-of-sustainability-from-green-claims-to-eco-specific/
  3. NutraIngredients-Asia. Beauty trends 2025: Key factors set to shape APAC beauty market. 2025. Disponível em: https://www.nutraingredients.com/Article/2025/01/07/beauty-trends-2025-key-factors-set-to-shape-apac-beauty-market/
  4. Mintel. 2025 Global Beauty and Personal Care Trends. Material citado em KisaCoresearch, 2024. Disponível em: https://kisacoresearch.com/sites/default/files/documents/mintel_2025_global_beauty_and_personal_care_trends_poster_digital.pdf
  5. PwC. Consumers willing to pay 9.7% sustainability premium, even as cost-of-living and inflationary concerns weigh: PwC 2024 Voice of the Consumer Survey. 2024. Disponível em: https://www.pwc.com/gx/en/news-room/press-releases/2024/pwc-2024-voice-of-consumer-survey.html
  6. ABIHPEC. Como o setor de Beleza e Cuidados Pessoais contribui para a economia circular? Disponível em: https://abihpec.org.br/economia-circular-cosmeticos-brasil/
  7. ABIHPEC. Programa Mãos Pro Futuro, pioneiro em logística reversa, completa 18 anos de atividade, atingindo 31,6% de recuperação de materiais em 2023. 2024. Disponível em: https://abihpec.org.br/release/programa-maos-pro-futuro-pioneiro-em-logistica-reversa-completa-18-anos-de-atividade-atingindo-316-de-recuperacao-de-materiais-em-2023/
  8. ApexBrasil. Torne sua empresa sustentável para ser mais competitiva. Disponível em: https://www.apexbrasil.com.br/torne-sua-empresa-sustentavel-para-ser-mais-competitiva

Últimos artículos

Foto aérea da região de compreende o Central Park na ilha de Manhatan em Nova York

7 de octubre de 2026

La biodiversidad como infraestructura de innovación: el potencial del Cerrado y la Amazonía

El Cerrado y la Amazonía no son solo biomas que deben conservarse. Su diversidad biológica y química también puede impulsar ciencia, tecnología y una bioeconomía de mayor valor.

Leer más
A foto mostra o pôr do sol no Parque Estadual da Serra dos Pirineus em Pirenópolis em Goiás

5 de octubre de 2026

¿Natural, orgánico o vegano? Entiende las diferencias entre materias primas cosméticas

Conoce la diferencia entre materias primas naturales, orgánicas y veganas y cómo se aplican estas clasificaciones a la industria cosmética.

Leer más
Iara Mendes derrama em um becker pó de açafrão da terra

29 de septiembre de 2026

Nanoterra refuerza la agenda de competitividad, industria y bioeconomía con su participación en el Consejo Deliberativo del CNPq

La nominación de Iara Mendes Maciel por parte de Sebrae amplía la presencia de la experiencia empresarial de base científica en uno de los principales espacios de discusión sobre ciencia, tecnología e innovación de Brasil

Leer más

Recibe nuevos artículos en tu bandeja de entrada

Suscríbete para recibir en primicia las novedades de nuestro blog.